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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Não, já não amo mais os passarinhos

SONETO DO AMOR DEMAIS

Não, já não amo mais os passarinhos
A quem, triste, contei tanto segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos caminhos.

Não amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E até de amar a vida tenho medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte empobrecida
A paixão do que se der à coisa amada

E que não sofra por desmerecida
Aquela que me deu tudo na vida
E que de mim só quer amor - mais nada.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O triste coração que eu trago, é tão velhinho

Meu coração

O triste coração que eu trago, é tão velhinho,
E tanto tem amado, e tem vivido tanto,
Que não suporta mais o fogo de um carinho,
Nem de outro coração o cálido quebranto.

Às vezes, alta noite, ouço-o chorar sozinho,
Do meu peito escondido ao último recanto,
Assim como quem sente a dor de algum espinho
Que o dere, e quer leni-la , ao afagá-la em pranto.

É ele! É o coração tristíssimo, que chora
De saudade de alguém, que o fez antegozar
Um grande, um santo amor, e que se foi embora.

E escuto-o palpitar, tão leve, que parece
Um ser que sente frio, e treme, a murmurar
Num soluço infinito, os restos de uma prece...

Alceu Wamosy, 1895-1923

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Seremos como dois lírios enfermos

Seremos como dois lírios enfermos
Que morrem numa jarra abandonada.
O acaso nos mostrou a mesma estrada
E sonhamos ao luar dos mesmos ermos.

Abençoou-nos o mesmo azul sem termos,
Ao descambar da véspera sagrada.
E hei de ter, e terás, ó bem-amada,
Tranqüilidade e paz para morrermos.

Ah! tu bem sabes que não tarda o outono...
Perder-nos-emos pela escura brenha,
Pelos ínvios sertões do eterno sono.

E que nos baste, amor, termos vivido
Em meio destes corações de penha
Sem o lamendo inútil de um gemido!

Ilustração:
Lilium rubescens / John Game, edited by Denis Barthel. [2007].

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A nossa casa, Amor, a nossa casa!


A Nossa Casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -- tão bom! -- dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

Florbela Espanca, 1894-1930
Extraído de http://www.sonetos.com.br/sonetos.php?n=1712 acesso em 3 Jan. 2009.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Vivendo para a morte, alegre da tristeza

O Oitavo Pecado

Vivendo para a morte, alegre da tristeza,
Temendo o fogo eterno e a danação sulfúrea,
Gelaste no cilício, em ascética fúria,
A alma ridente, o sangue em esto, a carne acesa.

Foste mártir e herói da própria natureza.
Intacto de ambição, de desejo ou de injúria,
Para ganhar o céu, venceste a ira, a luxúria,
A gula, a inveja, o orgulho, a preguiça e a avareza.

Mas não amaste! E, além do Inferno, um outro existe,
Onde é mais alto o choro e o horror dos renegados:
Ali, penando, tu, que o amor nunca sentiste,

Pagarás sem amor os dias dissipados!
Esqueceste o pecado oitavo: e era o mais triste,
Mortal, entre os mortais, de todos os pecados!

Olavo Bilac, 1865-1918
Extraído de http://pt.wikisource.org/wiki/O_Oitavo_Pecado acesso em 3 Jan. 2009.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Se eu a visse descer da escadaria

Se eu a visse descer da escadaria
de um altar que entre nuvens se atufasse,
certo o menor espanto não teria...
De onde quisereis vós que ela baixasse?

Pois dizei-me, vós todos, onde havia
de cintilar a luz daquela face?
A sua palidez tão casta e fria
era um lis, que na terra infiel não nasce.

Zelos de amor, no entanto, eu tinha, ao vê-la
mirada por vós todos, como estrela
vesperal que ninguém contempla a sos. .


Minha pobre alma, que ilusão a tua!
Há damas tristes que são como a lua:
a luz que têm é para todos nós...

domingo, 4 de janeiro de 2009

Amemos a mulher que não ilude

Beijos Mortos

Amemos a mulher que não ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa, por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos ao passado.

Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei, outrora, quanto pude,
porém mais deveria ter amado.

Choro. O remorso os nervos me sacode.
e, ao relembrar o mal que então fazia,
meu desespero, inconsolado, explode.

E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado, quanto amar devia.

Martins Fontes, 1884-1937
Extraído de http://www.sonetos.com.br/sonetos.php?n=1398 acesso em 2 Jan. 2008.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Oh! meu amor,escuta, estou aqui

Contrasenso

Oh! meu amor,escuta, estou aqui,
pois o teu coração bem me conhece,
eu sou aquela voz que, em tanta prece
endoideceu, chorou, gemeu por ti!

Sou eu, sou eu que ainda não morri.
Nem a morte me quer, ao que parece,
e vinha renovar se ainda pudesse
as horas dolorosas que vivi.

Oh! que insensato e louco é quem se ilude!
Quiz fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que teus olhos são capazes!

Deitando a vista pelo mundo além
desisto de encontrar na vida um bem
que valha o mal que tu me fazes!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Conheço um coração, tapera escura

Assombração

Conheço um coração, tapera escura,
Casa assombrada, onde andam penitentes
Sombras e ecos de amor, e em que perdura
A saudade, presença dos ausentes.

Evadidos da paz da sepultura,
Num tatalar de tíbias e de dentes,
Revivem os fantasmas da ternura,
Arrastando sudários e correntes.

Rangem os gonzos no bater das portas,
E os corredores enchem-se de prantos...
Um mundo de avejões do chão se eleva,

Ressuscitado pelas horas mortas:
Frios abraços gemem pelos cantos,
Beijos defuntos fogem pela treva.

Olavo Bilac, 1865-1918

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Nunca te vejo o peito arfar de enleio

Os Seios

Nunca te vejo o peito arfar de enleio,
Quando de amor, ou de prazer te ébrias,
Que não ouça lá dentro as fugidias
Aves, baixo alternando algum gorjeio...

Aves são, e são duas aves, creio,
Que em ti mesma nasceram, e em ti crias,
Ao arrulhar de castas melodias,
No aroma quente e ebúrneo do teu seio;

Têm de uns astros irmãos o movimento,
Ou de dois lírios, que balouça o vento,
O giro doce, o lânguido vaivém.

Oh! quem me dera ver no próprio ninho
Se brancas são, como o mais branco arminho,
Ou se asas, como as outras pombas, têm...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada

Duas Almas

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Alceu Wamosy, 1895-1923

Extraído de: Senna, JA. Um célegre soneto à luz da estilística. Revista Philologus. Rio de Janeiro, Ano 12, n. 34. Disponível em http://www.filologia.org.br/revista/34/14.htm acesso em 15 Dez. 2008.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Não te toque a noite nem o ar nem a aurora

Poema V - Não te toque

Não te toque a noite nem o ar nem a aurora,
só a terra ,a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas de teu país fragrante.

Desde Quinchamalí onde fizeram teus olhos
aos pés criados para mim na Fronteira
és a greda escura que conheço:
em teus quadris toco de novo todo o trigo.

Talvez tu não saibas, araucana,
que quando antes de amar-te me esqueci de teus beijos
meu coração ficou recordando tua boca

e fui como um ferido pelas ruas
ate que compreendi que havia encontrado
amor, meu território de beijos e vulcões.

Pablo Neruda, 1904-1973

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O teu perfume, amada - em tuas cartas


Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada - em tuas cartas
Renasce, azul... - são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou.. nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima!... (Nunca te aprtas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Passei ontem a noite junto dela

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
apenas entre nós - e eu vivia
no doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
naqueles olhos negros! Sá a via!
Música mais do céu, mais harmonia
aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
é sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!


* Sergio Faraco (org.). Livro dos Sonetos: 1500-1900: poetas portugueses e
brasileiros. Porto Alegre : L&PM, 2002.

domingo, 23 de novembro de 2008

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida

FANATISMO

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida,
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já tôda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

«Tudo no mundo é frágil, tudo passa...»
Quando me dizem isto, tôda a graça
Duma bôca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de-rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Principio e Fim!...»


terça-feira, 11 de novembro de 2008

Como o gênio da noite, que desata


MARIETA

Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... Bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além da rua
preludia um violão na serenata.

Furitivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó Surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!

Castro Alves, 1847-1871

* Sergio Faraco (org.). Livro dos Sonetos: 1500-1900: poetas portugueses e
brasileiros. Porto Alegre : L&PM, 2002.

domingo, 2 de novembro de 2008

Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma

Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma
Do teu sorriso entrou, como o sol na floresta,
Caminhei para ti, na mão tendo uma palma,
E chegaste, doirada, entre flores de giesta.

Ástrea aliança de uma alma a sonhar por outra alma!
O luar nascia triste, a tarde era funestra...
Diante de mim as mãos uniste, palma a palma:
Sorriste... Para ver o céu nada me resta!

De joelheiras de ferro, estarcão e acha d'armas,
Verde escudo em sinople, eu fui, pelos Poemas,
O cavaleiro afeito às gritas e aos alarmas.

Vi esculcas no azul, que eram anjos: as sagas
Que te vinham buscar, sumiram-se blasfemas:
Mas, Senhora, por ti fiquei cheio de chagas...


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...


Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-se de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera fosse sempre assim
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade presa a mim!

Florbela Espanca, 1894-1930

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

"Virás comigo", disse, sem que ninguém soubesse

VII

"VIRÁS comigo", disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.

Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!

Por isso quando ouvi que tua voz repetia
"Virás comigo", foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

Pablo Neruda, 1904-1973

Pablo Neruda. Cem sonetos de amor. Porto Alegre : L&PM, 1997.
Tradução de Carlos Nejar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Quanta mulher no teu passado, quanta!


Supremo enleio

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda...

Florbela Espanca, 1894-1930

Poemas de Florbela Espanca, Martins Fontes, 1996 - S. Paulo, Brasil

Extraído de http://zezepina.utopia.com.br/poesia/poesia003.html acesso em 08 set. 2008.