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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Seremos como dois lírios enfermos

Seremos como dois lírios enfermos
Que morrem numa jarra abandonada.
O acaso nos mostrou a mesma estrada
E sonhamos ao luar dos mesmos ermos.

Abençoou-nos o mesmo azul sem termos,
Ao descambar da véspera sagrada.
E hei de ter, e terás, ó bem-amada,
Tranqüilidade e paz para morrermos.

Ah! tu bem sabes que não tarda o outono...
Perder-nos-emos pela escura brenha,
Pelos ínvios sertões do eterno sono.

E que nos baste, amor, termos vivido
Em meio destes corações de penha
Sem o lamendo inútil de um gemido!

Ilustração:
Lilium rubescens / John Game, edited by Denis Barthel. [2007].

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Se eu a visse descer da escadaria

Se eu a visse descer da escadaria
de um altar que entre nuvens se atufasse,
certo o menor espanto não teria...
De onde quisereis vós que ela baixasse?

Pois dizei-me, vós todos, onde havia
de cintilar a luz daquela face?
A sua palidez tão casta e fria
era um lis, que na terra infiel não nasce.

Zelos de amor, no entanto, eu tinha, ao vê-la
mirada por vós todos, como estrela
vesperal que ninguém contempla a sos. .


Minha pobre alma, que ilusão a tua!
Há damas tristes que são como a lua:
a luz que têm é para todos nós...

domingo, 2 de novembro de 2008

Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma

Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma
Do teu sorriso entrou, como o sol na floresta,
Caminhei para ti, na mão tendo uma palma,
E chegaste, doirada, entre flores de giesta.

Ástrea aliança de uma alma a sonhar por outra alma!
O luar nascia triste, a tarde era funestra...
Diante de mim as mãos uniste, palma a palma:
Sorriste... Para ver o céu nada me resta!

De joelheiras de ferro, estarcão e acha d'armas,
Verde escudo em sinople, eu fui, pelos Poemas,
O cavaleiro afeito às gritas e aos alarmas.

Vi esculcas no azul, que eram anjos: as sagas
Que te vinham buscar, sumiram-se blasfemas:
Mas, Senhora, por ti fiquei cheio de chagas...


terça-feira, 2 de setembro de 2008

O pesar de não tê-la encontrado mais cedo


O pesar de não tê-la encontrado mais cedo,
De não ter visto o céu quando havia esperança!
Som febril, ástreo som da alma de citaredo,
Por que vos não ouvi quando ainda era criança?

Quantas vezes o luar me sorria em segredo,
Quantas vezes a tarde era serena e mansa!
E o horizonte ante mim ressurgia tão ledo,
Que eu dizia: "Mas qua anjo entre nuvens avança?"

Hoje, depois de velho, e tão velho, mais velho
Que uma figura antiga e doce do Evangelho,
É que entre astros, trilhado o azul claro, a encontrei...

E pude, contemplando o sol da sua face,
Atirar a seus pés para que ela os pisasse,
Meus andrajos de pobre e meu manto de rei...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Vagueiam suavemente os teus olhares


Vagueiam suavemente os teus olhares
Pelo amplo céu franjado em linho:
Comprazem-se as visões crepusculares...
Tu és uma ave que perdeu o ninho.

Em que nichos doirados, em que altares
Repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
Que vês no azul o teu caixão de pinho.

És a essência de tudo quanto desce
Do solar das celestes maravilhas...
- Harpa dos crentes, cítola da prece.

Lua eterna que não tivesse fases,
Cintilas branca, imaculada brilhas,
E poeiras de astros nas sandálias trazes...